O governo federal apresentou aos estados uma proposta para segurar o preço do diesel: 

Subsídio de R$ 1,20 por litro sobre diesel importado. 

Objetivo: conter alta de combustível (que subiu por causa do preço do petróleo lá fora) e evitar impacto em alimentos e logística. 

Mas tem um problema enorme: 

Diesel produzido no Brasil fica de fora do subsídio. 

E isso cria uma distorção que pode custar caro para economia — e para o setor de refino nacional. 

Vou te explicar o que está em jogo. 

 

A proposta do governo 

O Ministério da Fazenda levou a proposta para o Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária) no final de março de 2026.

Como funciona: 

→ Subsídio de R$ 1,20/litro sobre diesel importado
→ Em vez de zerar ICMS, governo paga subvenção equivalente ao valor do imposto
→ União paga metade (R$ 0,60/litro)
→ Estados pagam metade (R$ 0,60/litro) 

Impacto estimado: R$ 3 bilhões/mês. 

Justificativa: 

Rogério Ceron, secretário do Tesouro Nacional: 

“Nossa preocupação é agir com rapidez para mitigar esses impactos sobre a sociedade, especialmente sobre setores mais sensíveis como o transporte e a produção de alimentos.” 

Faz sentido, né? 

Mas tem um detalhe que estraga tudo. 

 

O problema: diesel nacional fica de fora 

A proposta prevê subsídio só para diesel importado. 

Diesel produzido no Brasil? Não tem subsídio. 

Por que isso é um problema gigante? 

Porque cria assimetria competitiva. 

Diesel importado fica mais barato que diesel nacional. 

Resultado: 

→ Refinarias brasileiras perdem mercado
→ Importação fica mais vantajosa que produção local
→ Setor de refino nacional se ferra 

 

A crítica do setor de refino 

Evaristo Pinheiro, presidente da Refina Brasil (associação que representa refinarias nacionais), foi direto: 

“Essa medida é vista como inconstitucional por ferir o princípio da isonomia tributária ao tratar de forma diferente a produção nacional e a importação.” 

Tradução: 

Constituição manda tratar igual o que é igual. 

Diesel importado e diesel nacional são o mesmo produto. 

Logo, tributação (ou subsídio) tem que ser igual. 

Dar vantagem só pro importado = distorção. 

 

Estados não chegaram em consenso 

A proposta foi discutida no Confaz, mas estados não bateram o martelo. 

Por quê? 

Porque vários pediram mais esclarecimentos antes de aceitar. 

São Paulo, por exemplo, sinalizou que não vai aceitar. 

Samuel Kinoshita, secretário da Fazenda de SP, listou dúvidas: 

→ Limitação temporal (até quando vale?)
→ Limitação do valor (R$ 0,60 é fixo ou pode mudar?)
→ Estruturação da proposta (como operacionalizar?)
→ Questões técnicas não esclarecidas 

E tem mais: 

Se não houver adesão unânime dos estados, o valor da subvenção pode mudar. 

Rogério Ceron disse que os R$ 0,60 estão previstos se todos aderirem. 

Se parte dos estados ficar de fora, o valor cai. 

Ou seja: 

Proposta ainda está longe de ser aprovada. 

 

Por que governo está fazendo isso 

O contexto: preço do petróleo subiu no mercado internacional. 

Resultado: 

→ Diesel fica mais caro
→ Frete sobe
→ Alimentos sobem (porque dependem de transporte)
→ Inflação aumenta 

Governo quer evitar isso. 

Subsídio no diesel = segurar frete = segurar preço de alimentos. 

Lógica faz sentido. 

Mas a execução está criando distorção. 

 

O que deveria ser feito 

Se o objetivo é segurar preço do diesel, subsídio deveria valer para todo diesel. 

Importado e nacional. 

Por quê? 

Porque o que importa para o consumidor final (transportador, produtor rural) é o preço na bomba. 

Não importa se diesel veio de fora ou foi produzido aqui. 

Dar subsídio só para o importado: 

❌ Cria distorção competitiva
❌ Prejudica setor de refino nacional
❌ Pode ser inconstitucional (isonomia tributária)
❌ Incentiva dependência de importação 

Dar subsídio para todo diesel: 

✅ Trata igual o que é igual
✅ Protege setor de refino nacional
✅ Atinge objetivo (segurar preço)
✅ Evita distorção 

 

Outras medidas discutidas no Confaz 

Além do subsídio, estados e União discutiram combate a fraudes no setor de combustíveis. 

O que ficou acertado: 

→ Regulamentar mecanismos contra devedor contumaz (quem não paga imposto reiteradamente)
→ Compartilhar informações entre Receita Federal e estados
→ Trocar dados sobre postos envolvidos em fraudes fiscais 

Contexto: 

Ministro Dario Durigan pediu que estados enviem à União suas listas de devedores contumazes de ICMS no setor de combustíveis. 

Objetivo: incorporar esses devedores à lista federal (permitida pela LC 225/26) e apertar cerco. 

Isso faz sentido. 

Porque parte da distorção no setor de combustíveis vem de sonegação, não só de tributação. 

 

O que esperar 

Cenário 1 (improvável): 

Estados aceitam proposta. Subsídio entra em vigor. Diesel importado fica mais barato. Refinarias nacionais reclamam. Discussão vai para o Judiciário. 

Cenário 2 (provável): 

Estados não aceitam (ou aceitam parcialmente). Proposta não sai do papel. Preço do diesel continua subindo. Governo busca alternativa. 

Cenário 3 (ideal, mas improvável): 

Governo reformula proposta para incluir diesel nacional. Estados aceitam. Subsídio entra em vigor sem distorção. 

 

Conclusão 

A intenção do governo é boa: segurar preço do diesel para evitar impacto em alimentos e logística. 

Mas a execução está criando distorção. 

Subsidiar só diesel importado e deixar diesel nacional de fora: 

❌ Prejudica setor de refino nacional
❌ Cria assimetria competitiva
❌ Pode ser inconstitucional 

E ainda nem foi aprovado. 

Porque estados pediram mais esclarecimentos — e São Paulo já sinalizou que não vai aceitar. 

A proposta precisa ser reformulada. 

Subsídio tem que valer pra todo diesel — importado e nacional. 

Senão, em vez de resolver problema, vai criar outro. 

📰 Fonte: Portal JOTA 

 

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